A manutenção do calendário do ENEM e as desigualdades sociais no Brasil

Estão abertas as inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

O ENEM representa a esperança de transformação com expectativa de ingresso em uma universidade, mas tornou-se um desafio. Para muitos será uma grande frustração.

Criado em 1998, o ENEM visava proporcionar a avaliação de desempenho de estudantes do Ensino Médio de instituições públicas e privadas. A partir de 2009, o referido exame passou também a exercer a função de selecionar os estudantes para diversas instituições de ensino superior, conjuntamente a outros programas do Governo Federal, como o Sisu, Prouni e Fies.

A utilização do ENEM e a implementação de tais programas têm como função essencial promover a democratização do ensino superior no Brasil, ampliando a possibilidade de acesso a pessoas que não tinham oportunidades para ingressar em cursos superiores.

Com a implementação do ENEM/SISU, muitas universidades que antes adotavam os vestibulares próprios para selecionar seus alunos, passaram a utilizá-los, gerando uma janela de oportunidades para muitos estudantes que poderiam concorrer a vagas de todo o país sem se deslocar, já que a forma antes utilizada acabava privilegiando aqueles que podiam arcar com os custos de tais deslocamentos.

No entanto, no presente ano de 2020, com a Pandemia do Covid-19 (Coronavírus), diversos problemas sociais agravaram-se, dentre eles, a desigualdade educacional.

Segundo Lacerda (2017):

Existe a desigualdade de não ter acesso ao sistema escolar, existe a exclusão dentro do próprio sistema, existem acessos a padrões diferentes de qualidade educacional e existe a desigualdade de tratamento – quando estudantes têm acesso a condições muito desiguais da oferta educacional, que deveriam ser, no mínimo, igual para todos. E o pior, e consequência dos fatores acima: a desigualdade de conhecimentos adquiridos.

Todas essas formas de desigualdades já existentes no país potencializam-se nesse momento. Fato é que a desigualdade educacional relaciona-se à desigualdade econômica, assim como a desigualdade econômica impacta na desigualdade educacional.

A necessidade de isolamento social fez com que instituições de ensino se reinventassem rapidamente, promovendo aulas e atividades à distância no formato EAD ou por meio da virtualização de aulas ao vivo.

É possível notar a importância da tecnologia nos últimos dias. Apesar do distanciamento, a comunicação continua acontecendo, assim como as aulas para grande parte da população.

Qual é problema então? Muitas instituições públicas não virtualizaram suas aulas nem migraram para o EDA durante a pandemia. E mesmo que o fizessem, seus alunos não conseguiriam acessar as plataformas de ensino.

Não se pode desconsiderar que grande parte da população brasileira nesse momento não tem acesso ao básico recomendado pelos órgãos públicos e internacionais como ter acesso a água, sabão, máscaras etc.

No atual contexto, como pensar que todos conseguem acompanhar aulas virtuais? Se a preocupação imediata das pessoas é com sua alimentação e sobrevivência, como pensar que a manutenção do calendário do ENEM cumprirá seu papel de democratizar o acesso a TODOS os estudantes?

Mediante o imenso quadro de exclusão social a que está submetida grande parte da população brasileira, a educação exerce o papel de dar uma expectativa positiva para viabilizar oportunidades, possibilitar mobilidade social e concretização de sonhos (CASTRO et al., 2017).

Manter o calendário do ENEM não seria privilegiar uma camada da população e fechar os olhos para as desigualdades sociais e educacionais do nosso país?

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Photo by Polina Zimmerman on Pexels.com

Referências:

CASTRO, Bianca Gomes da Silva Muylaert Monteiro de; RANGEL, Etuany Martins; CASTRO, Maria José Gomes da Silva; BORGES, Luís Felipe Câmara; AMARAL, Shirlena Campos de Souza. A política de cotas como mecanismo de enfrentamento à pobreza e democratização do ensino superior: uma análise dos efeitos da desigualdade educacional no exercício da cidadania e na justiça social brasileira. Linkscienceplace, Nº 3, volume 4, article nº 12, April/June 2017. Disponível em: http://revista.srvroot.com/linkscienceplace/index.php/linkscienceplace/article/view/384

Lacerda, Pilar. As desigualdades educacionais no Brasil: enfrentando-as a partir da escola. 2017. Disponível em https://educacaointegral.org.br/reportagens/desigualdades-educacionais-no-brasil/. Acesso em 11 de maio de 2020.

Publicado por biancamonteirodecastro

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